terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobre a vida


Se na vida acontecesse extamente o que imaginamos, a fantasia não teria lugar - nem as surpresas.

Dizem que antes de nos submetermos à limitação da matéria, estabelecemos o que iremos fazer com o corpo físico que ganharemos.

É feliz quem cumpre o combinado, pois ao seguir a sua natureza terá condições de enfrentar o que vier.

Quanto maior a influência externa, maior a tendência de haver dificuldades.

É viver para ver (e não ver parar crer).

* * *

Apesar de escrever com inspiração em acontecimentos vividos, textos lidos e representações assistidas, dentro do possível tenho evitado manifestar-me na forma de aconselhamento, apesar de algumas consultas que volta e meia aparecem. É algo natural em nossa cultura perguntar a opinião dos outros. O que não percebemos, muitas vezes, é que em toda afirmação há percepções e valores de quem responde, os quais podem ser bem diferentes de quem pergunta - apesar da afinidade existente.

Por vaidade, talvez, a preferência seja provocar o outro a manifestar-se, ao invés de assumir as escolhas como próprias e correr o risco da censura.

Incertezas e medos existem muito mais por causa dos outros do que por nós mesmos. Exercitamos o pensar e somos instigados a falar o que raciocinamos a partir de parâmetros ensinados; esquecemos que a origem e a finalidade está no sentir.

Sentir-se bem é a única resposta possível. Se algo incomoda, é o impossível que está sendo vivido. Por que quem já atingiu o impossível esquiva-se do possível ainda não sei - mas não dá para responsabilizar a vaidade por tudo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Suicidar-se

- Sinceramente, alguma vez você leu ou ouviu falar de alguém que tenha cortado os pulsos após doar sangue?

- Que ideia!

- Você vem me falar de respeitar a opção do suicida e não consegue sequer me escutar – e olha que o raciocínio é simples - quando não se quer mais um objeto, ou uma roupa, o primeiro impulso não é colocar para dar? Reciclamos até embalagens...

- Sim, e daí?

- Se alguém realmente não quer mais o seu corpo e sabe que em algumas horas ele será pó ou comida de vermes, o razoável não seria distribuí-lo para quem muito precisa?

- Ah! Você acha que o cara vai pensar...

- Tá, você acha que jogar-se na frente do metrô é um mero impulso, sem prévia reflexão. Se ele pensasse nos outros, pelo menos na família e nos amigos que provavelmente sentirão sua falta, ele não se matava.  É por isso que eu insisto ser o suicídio uma demonstração de egoísmo.

- Lá vem você de novo...a pessoa precisa de ajuda.

- Concordo, apesar dessa ser uma contradição sua: se você respeita a decisão do outro, não há no que ajudá-lo, basta respeitar. Pense bem: o viver é um conviver após o outro. E conviver é deparar-se com as diferenças e nossas limitações. Não há limites para o egoísta, há apenas ele e o seu querer. O suicida é o cara que não consegue participar da festa, apesar de estar nela: não dança aguardando sua música favorita nem pede outra música para o DJ; espera ser servido, e é capaz de amargar fome a servir-se de outra comida porque o garçon não aparece; interage dando ordens e se ouve as pessoas é mero acaso. Ele prefere desligar a chave geral, sem se importar se há ou não um gerador: se não consegue se divertir do jeito que ele imagina que os outros conseguem, ele se vinga acabando com a festa de todos.

- Exagero considerar o suicídio uma vingança.

- Há casos e casos, certamente, mas se não for vingança é raiva de sua incompetência em seguir em frente. Para mim, as tentativas de suicídio existem para o suicida poder ver a reação das pessoas, o quanto elas se subordinarão às suas vontades, o que tornaria a vida suportável a ele. Não é que deseje a morte, o que ele quer é o mundo que imagina e não existe. Só vou convencer-me de que se trata de uma decisão madura quando antes de morrer o cara resolver doar não apenas sangue, mas um rim, um pulmão e uma córnea.

- Credo!

- Por quê? No mínimo vai dar um tempinho a mais para decidir se é o que ele quer mesmo e, se mudar de ideia, vai estar no lucro – pior é só arrepender-se quando estiver do outro lado. O tormento é mais do espírito do que do corpo, tirar o corpo não deve alterar muito a realidade. Podemos mudar não apenas o que queremos como os ambientes e pessoas com as quais convivemos: tem lugar para todo mundo no planeta, mas depois que saímos dele, ninguém sabe se, quando, e em que condições vai voltar.

sábado, 4 de agosto de 2012

Respirar é para o amor. Transpirar, para o trabalho.

O semáforo acabara de abrir e ela recuou da sarjeta para a calçada. Estava com febre, ansiosa e dispersiva, tentando compreender aquele momento. Ainda não sabia o que pensar. O sinal continuava verde para os carros que não existiam na rua. Correu. Cansou-se. Respirar é sempre, o transpirar apenas acompanha.