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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
sábado, 4 de novembro de 2017
Entendi o cinema mudo
Soube da programação por acaso. Noite linda de primavera, lua cheia e 26°. Fui confiando na curadoria do evento: apenas sabia que um filme seria projetado na parede externa do auditório do Ibirapuera enquanto a orquestra tocaria ao vivo (foto acima) para celebrar o final da 41a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
O filme chamava-se "O Homem Mosca", de 1917. Uma comédia de riso fácil com a magia da música. Se fosse em um telão com reprodução do som (a forma como os filmes antigos nos são acessíveis) talvez eu risse menos.
L
Lembrei-me das aulas de livreto, em que o professor contava que as óperas eram apresentadas entre piqueniques com animadas conversas, interrompidas para ouvir os cantores famosos da época, que muitas vezes cantavam músicas sem qualquer contexto com a ópera, só para exibir sua voz.
Tal hábito de conversar com música e tendo alguma cena para distração foi levado pelos imigrantes italianos a Nova York, popularizando o cinema e atrapalhando quem ia às sessões para acompanhar o filme: a introdução de novas tecnologias (como som) ajudou a manter o público com poder aquisitivo nas salas de cinema, estratégia utilizada até hoje.
Na foto, há pessoas de pé: são vendedores ambulantes que insistiam em berrar e tirar a visão do público. Para quem não conhece o lugar, senta-se na grama e de qualquer ponto avista-se o palco. Será que alguém comprou água ou cerveja durante os 60 minutos de exibição? Não vi ninguém comprando.
Os vendedores deixaram de se divertir e ainda por cima atrapalharam a diversão de seus potenciais clientes, em uma demonstração de que não basta acesso (à cultura, gratuito) é preciso permitir-se acessar.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Aos poucos e pela borda
Hoje há alguns consensos:
1) É necessário mudar as regras trabalhista e previdenciária.
2) Não há contexto político ou econômico para redução de
direitos.
Como conciliar os interesses envolvidos?
Existe uma “classe” de trabalhadores que é negligenciada
pelos sindicatos: os que têm remuneração acima do teto da previdência. São profissionais
acessados durante as suas férias, que não sabem o que é hora extra. A sugestão
envolve estas pessoas. Explico:
É usual as convenções coletivas possuírem dois índices de
reajuste, com maior aumento a quem tem menor salário. O salário que define os
reajustes, não por coincidência, costuma ser superior ao teto da previdência, afastando
o risco de eventual execução fiscal por parte do INSS.
É usual também, ao ser promovido, o profissional ser convidado
a ser sócio ou a virar pessoa jurídica; uma forma de diminuir o custo
trabalhista para a empresa e de se ter maior remuneração por abrir mão de
direitos. Integrar pessoa jurídica também é a alternativa encontrada por quem é
demitido.
Apesar do aumento da remuneração, poucos são os que mantêm a
contribuição para o INSS – se é que contribuem. A regra é não contribuir ou
contribuir pelo piso, apenas para contar tempo (se vier a ser estabelecida uma
idade mínima para aposentadoria, sem considerar tempo de serviço,
proporcionalmente o operacional vai contribuir muito mais que seus chefes).
Do lado do empregador, são micro e pequenos empresários que
absorvem a mão de obra qualificada e experiente, muito cara para ser celetista.
Contratação de prestador de serviços tem menor custo e é mais flexível, não
exige um terceiro intermediário para contratações temporárias nem dita prazo
para período de experiência.
Eis aqui a sugestão, que pode ter efeito tão simbólico
quanto a exoneração dos comissionados – porém que ajudará parcela da população
que precisa simular as relações de trabalho: permitir, para quem receber acima
do teto da previdência, a contratação por tempo determinado sem intermediário
ou anuência do MP do trabalho. Sua renovação, porém, passaria a ser
obrigatoriamente pela CLT.
Hoje a terceirização é proibida para a atividade fim da
empresa e acaba recaindo para mão de obra de baixa qualificação. A contratação
temporária, que não pode ser feita diretamente, também é feita com quem tem
baixo salário. Isso continuaria igual.
A nova possibilidade pode ajudar a reinserção de quem perdeu
emprego e diminuir risco do empreendedor que contrata, além de desestimular
jeitinhos: uma lei possibilitando contrato em caráter pessoal, para quem recebe
acima do teto do INSS, por prazo determinado, sem que isso signifique vínculo
de emprego.
Com prazo máximo de 11 meses, renovável apenas via CLT, neste
novo contrato temporário deve ser indicado o projeto que será feito pelo
profissional e respectivo cronograma. Se o profissional terminar o projeto antes,
o período com a remuneração mensal permanece a mesma – se o cronograma atrasar por
mais de 1 mês, o contrato pode ser rescindido. Após 11 meses, se houver qualquer
contratação – outro contrato temporário ou via CLT - o trabalhador terá direito
a 1 salário.
Não seria a primeira tentativa de ampliação na base de
contribuintes, isso já ocorreu na instituição do MEI, aqui não há desconto na
tributação (na negociação, o FGTS até pode vir a ser facultativo, conforme
contrato, com ou sem multa).
As vantagens são (i) a segurança do empresário que contrata, de que não vai responder a uma reclamatória trabalhista pedindo dissídio, hora extra, adicionais diversos), (ii) o profissional passa a ter uma outra alternativa para manter-se no mercado de trabalho, mantendo-se com benefícios que não tem quando é prestador de serviço e com a tributação que já está acostumado; (iii) contratações temporárias oxigenam as empresas e permitem maior número de pessoas beneficiando-se de um mesmo posto de trabalho; (iv) ampliação do número de beneficiários do INSS recolhendo pelo teto (há alguns anos o governo fez um esforço equivalente com a criação do MEI, aqui, pelo mesmo custo por beneficiário, a arrecadação será muitas vezes maior).
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Carnaval na Capilal Paulista
Não é a primeira vez que passo o carnaval em São Paulo, porém é a primeira vez que fico na capital e vou conferir o que a cidade tem para oferecer. Tudo "culpa" dos bons comentários a respeito da organização.
Vi no pré-carnaval do Ibirapuera o controle de seguranças privados verificando o interior das bolsas impedindo vidro de entrar. A organização foi providenciada pela Amstel, marca de cerveja da Skol, logo era dela a exclusividade na comercialização. Um caminhão ao lado da praça com o comércio ambulante de comida garantia o abastecimento de cerveja e gelo. Eu ganhei balão, chapéu e, talvez por não consumir nada, achei uma sacanagem o pessoal ir para fora do cordão só para comprar bebida concorrente.
A experiência foi muito boa, cantei e dancei por algumas horas. Saí porque de repente pareceu que todo mundo percebeu como estava bom o lugar que eu estava, apesar do som dispersar pelo parque (ou por causa disso, o que permitia conversar sem esforço). Preferi guardar energia para um outro dia a insistir.
Bem, em pleno carnaval, nada de flanelinha na região da Vila Mariana. Já sabendo dos atrasos, cheguei algumas horas depois para um bloco que me pareceu adequado à diversão. Acertei. Foi muito fácil aproximar-se do carro de som, as famílias ficavam longe e à sombra. Ganhei mais chapéu, dessa vez nos modelos e cores que eu queria.
Para mim, o ponto forte foi cantar Wando em ritmo de marchinha - porém não fiquei nem até a metade da festa. O sinal amarelo foi uma garrafa de vodka quebrada no chão, que deixou meu pé melado e vergonhosamente sujo. Olhando para o chão, foi por milagre não ter ainda chutado qualquer long neck ou latinha.
Dessa vez vendia-se de tudo, estando cadastrado ou não, ou seja, as pessoas ficavam gritando o que estavam oferecendo, atrapalhando quem só queria dançar e cantar (eu, por exemplo). De comida, só a fantasia de um garoto: batata-frita, que achei genial.
Ainda há muito a ser melhorado, não vou me surpreender se criarem camarote nos próximos anos.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
São Paulo
Percebi que minha primeira
lembrança de São Paulo é a de um lugar próximo à Terra da Fantasia: as revistas
em quadrinho e os livros didáticos vinham de lá. Por muitos anos, o que me foi
permitido conhecer restringia-se ao trecho Dutra-Régis Bittencourt, com várias
empresas conhecidas, atiçando ainda mais a imaginação infantil.
São Paulo foi a cidade que
escolhi para viver – e o encantamento ainda está presente, aliás, nunca
diminuiu. Sem dúvida há problemas, os mesmos das outras cidades de médio e
grande porte, principalmente as brasileiras. De forma certa ou errada, a cidade
está sempre se reinventando, as pessoas estão sempre chegando e partindo – o
que é perceptível até a estranhos.
Após tanto tempo ouvindo que a
cidade não pára, que o trânsito é infernal, que paulista só trabalha, e tantas
outras críticas, eu diria que estas são vantagens de viver aqui, possibilidades
de crescimento às quais as pessoas que criticam têm dificuldade em aceitar.
Sob a perspectiva do desapego,
cada vez mais na moda, São Paulo continua sendo uma cidade de vanguarda: ter
sempre pessoas na rua, haver lojas abertas, permite que cada um viva em seu
ritmo ao invés de seguir o que a sociedade segue; o trânsito infernal ajuda a
descobrir novos caminhos, à mudança de endereços, a conhecer mais pessoas, a
desenvolver outras atividades; a sensação de reduzir a vida ao trabalho, a
repensar na decisão profissional.
“Conduzo, não são conduzido” é o
lema da cidade que começou com um colégio. Conduzir a própria vida é da
essência deste canto do planeta, um desbravamento que torna a coragem
bandeirante um lugar comum na escola da vida.
Nascimento de uma cidade é uma
convenção que tenho certa resistência a aceitar; para todos os efeitos hoje esta
cidade faz 462 anos, uma adolescente rebelde que ainda está em formação e se
descobrindo.
sábado, 23 de janeiro de 2016
2016
Quase
final do mês e percebo, ao reler a lista de resoluções para 2016, que já a
descumpro: “retomar o blog” está escrito, enquanto muito escrito falta no blog.
Continuo
tendo ideias mil e vendo cenas daquelas dignas de ficção, só que depois que
precisei instalar o tal Windows 10 e ele veio com joguinhos que funcionam sem
internet, sentar em frente ao computador e ficar pensando dá jogo – mesmo agora,
em que a perspectiva de feriadão caseiro permite-me relaxar escrevendo.
Também
aconteceu este mês de eu fazer uma maratona entre laboratórios clínicos. Cinco
jejuns em 3 semanas bagunça a vida de qualquer um, convenhamos. O pedido médico
era um formulário, várias listas de exames com xis marcados à caneta. Quando a recebi
achei o máximo a praticidade e organização: consegui entender até para o que
serviam.
Fui
ao laboratório recomendado pela médica. A atendente, após confirmar com a chefe
dela, disse-me que um dos exames eles não faziam – e que para dois eu teria que
permanecer 24 horas em casa. Resolvi fazer os demais, voltei ao consultório e
peguei novo pedido com o exame que faltava (ela preencheu toda a coluna dele de
novo).
Com
o novo pedido fui ao laboratório concorrente, disseram-me que faziam o exame,
porém que não para o meu plano de saúde. Agradeci e fui à “versão popular”
daquele laboratório. O atendente não achou o exame no sistema, a chefe disse que
fazia – só que eu já não estava mais em conformidade com o seu preparo. Voltei
outro dia, porém queriam o carimbo da médica (não valia o nome impresso com
assinatura em cima).
Como
se tratava de um lugar que por experiência passada nunca mais voltei, resolvi
não insistir, procurei outro concorrente e eles também não tinham o tal exame.
Por fim, consultei por telefone um outro laboratório que me garantiu fazer o
exame, só que ao chegar lá (em jejum, que dúvida) pediram-me desculpa pelo equívoco
na informação.
Na
consulta, descobri que além de estar à procura do exame errado, o castigo 24h
em casa foi para um exame que não havia sido pedido, logo que deveria ser refeito.
Típica situação que nem adianta reclamar, aliás, reclamar para quem? No setor
público o prejuízo seria do SUS, no privado, ou do plano de saúde, ou do
laboratório se der glosa. Em ambos perde o paciente – eu mesma, que ainda estou
em dúvida se mudo ou não de doutora.
Neste
curto ano há outros fatos enrolados como narrado, daqueles que só recorrendo à
astrologia para tocar em frente com equilíbrio. É que do dia 6 ao dia 25 o
planeta mercúrio, responsável pela comunicação, está em movimento retrógrado, o
que significa dificuldade de comunicação. Na dúvida, jejum para novos exames,
só faço semana que vem.
domingo, 19 de abril de 2015
Final dos tempos? Novos tempos
O impulso foi tirar foto, mas o diligente olhar do índio constrangeu-me. Quem olhasse apenas para a mesa da exposição, montada com dois cavaletes e uma madeira torta, não perceberia a novidade.
Pendurado na coluna, dentre tantos artesanatos à venda no Conjunto Nacional (conhecido centro comercial da Av. Paulista), estava um cocar feito de canudo plástico.
O resultado visual é harmônico, merecedor de foto. Conseguir canudo certamente é mais fácil do que penas - ainda mais se tiver que provar que as penas foram encontradas ao invés de arrancadas - e deve ser mais confortável de uma criança usar do que o cocar original.
Uma crítica ao homem branco? O índio fora influenciado por Channel? Não sei definir, a informação ainda é bem recente, parece ser tendência: melhor usar materiais novos com inspiração em hábitos antigos do que tentar imitar o original.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Respeito não deveria ser tão difícil. Precisa avisar?
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Transporte Público - a grama verde do vizinho, já que nele é refresco.
Desde o primeiro dia percebi que precisava escrever sobre transporte público. Foram tantos os sustos (com este e outros assuntos) que só agora consigo organizar as ideias - pena que boa parte já estou esquecendo. Logo que cheguei, no aeroporto, providenciei o ticket de trem. No bilhete, ao invés de estações ou cidades, números. Nenhum horário, mas "válido a partir de + hora e data da compra". A sorte foi ter ido no guichê (depois soube que custava 2 Euros a mais, mais de 10% de acréscimo se comparado com a máquina que só aceita notas de até 20 euros). Tivesse eu comprado na máquina, não conseguiria chegar onde passaria o trem, nem identificaria o seu horário. Onde pensei que fosse, ninguém sabia se o próximo trem era o meu - muito menos consegui ler o nome que constava na frente do primeiro vagão; quando fui conferir no mapa já estava me confundindo com as cidades próximas. Subi tão confiante que bastou sentar para me pedirem informação, pois o som que informava conexões estava inaudível. No segundo trem (houve conexão) pediram para que eu respondesse pesquisa de satisfação do cliente, avisei que estava chegando naquele momento, mas o funcionário disse-me que precisava entrevistar todo mundo. Consegui dizer que considerava importante ter o fiscal dentro do trem, reclamar da falta de espaço para bagagem, mas esqueci de reclamar do que muito veio a me atrapalhar: as estreitas escadas para subir e descer dos vagões.
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| Qnt a mais vc pagaria para subir essas escadas? |
Meses depois, acredito ter entendido a lógica: O ICE (alta velocidade) e o Intercity (que permite reservar lugar) são os trens que os turistas pegam e praticamente não atrasam. Depois há os regionais (mais de um Estado, mas com curta distância) e os locais. Os locais, que param em todas as bibocas, não têm primeia classe nem escada - e há muito espaço para rodas (bicicletas, cadeirantes e andadores). Peguei o local uma vez - o suficiente. O trecho que fazia em 50 minutos no regional durou mais de 3 horas no local. Nem dá para dizer que ele ande mais devagar, que seja possível ver melhor a paisagem, a diferença é o tempo em que ele fica parado nas principais estações e o fato de parar em todas. Atraso é a regra nos trens regionais e locais. Alguns fazem piada sobre isso, mas não chegam a reclamar. Dependendo do trecho e do horário, é tão lata de sardinha quanto o nosso transporte na hora de pico, com o peculiar detalhe de que nós somos mais limpinhos. No dia em que vim embora vi um ICE em Mainz, indo a Hamburgo, tão lotado que desejei poder voltar outro dia para saber se era sempre assim, ou conhecer mais o idioma para perguntar o motivo de tantos engravatados contorcidos entre andadores e bicicletas.
O fato é que os estudantes só usam o trem no trecho em que não pagam (a matrícula na faculdade dá direito ao transporte que passa em frente ao campus), os outros trechos são feitos de carona (praticamente não usam ônibus que não seja de linha - e mesmo o de linha nunca sabem o preço ou por onde passa). Fiz minha inscrição no Blablacar, site de caronas coletivas que foi recomendado e, um dia antes da viagem, quem ia me dar carona cancelou porque havia batido o carro e estava no hospital. Não tentei uma segunda vez. O discurso é ser ecológico, um carro com 4 pessoas é melhor do que 4 carros na estrada, pode ser mais divertido (você tem que colocar o quanto gosta de conversar, se aceita ouvir música e se fuma) - tem o mesmo poder de convencimento das explicações de que não há crise no país ante tantas pessoas procurando garrafas plásticas nos lixos ou das etiquetas vermelhas "Frisch" avisando que o produto in natura é fresco.
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| Bombeiros correram para debaixo da aeronave antes da foto |
Na volta (Lufthansa), houve overbooking que não chegou a atrasar o voo. Após decolarmos, fomos informados de que havia um problema na asa do avião e teríamos que retornar. Foram três horas dando voltinha para despejar combustível (ainda estou em dúvida se escrevo perguntando se houve compensação deste impacto ao meio ambiente). Durante o dia eu ficaria radiante, acho linda a vista dos alpes suíços. A cena da chegada foi igual a dos filmes. Nos deram hotel, mas ainda não compreendi a diferença de tratamento entre os passageiros (eu ganhei taxi e não fui informada que haveria janta, quem chegou no ônibus fretado, uma hora depois, jantou). Foram 4 horas de sono e novo embarque. Fila para marcar a conexão. Mesmo avião, ninguém arrumou ou limpou, e uma passageira passou mal. Médicos vieram, ela desembarcou, as malas foram loclizadas - 1:15 aproximadamente testando nossa educação. Depois, forte turbulência em todo território brasileiro, de 3 a 4 horas. Não consegui comer o lanche e o comissário fez questão de recolher o pratinho em que eles estavam - desci da aeronava fazendo malabarismos. Nem passei no freeshop, tinha 50 minutos para o próximo voo. Só que este não era um dia para ser fácil, no eterno Galeão o desembarque é no 1º andar e o embarque no 3º: dos 4 elevadores, só 2 funcionavam - sempre dando prioridade aos cadeirantes. Especificamente, uma senhora alemã subiu e desceu enquanto eu esperava. No Brasil tudo deu certo, furei a fila, o funcionário nem percebeu que eu só tinha direito a um volume e deixou eu despachar 2, o voo saiu na hora e, até agora, não entendi porque o taxi que me deixou em casa acrescentou 3 reais ao taxímetro, após 30 horas de viagem resolvi nem questionar para chegar logo em casa.
* * *
As fotos das obras não ficaram boas, eis um breve resumo: o verão é a única época em que é possível fazer obra. Se planejar errado tem que esperar o ano seguinte, logo tudo para em função da obra - que só acontece em horário comercial. Em Freiburg, o cruzamento principal no centro da cidade, onde é possível fazer conexão das 5 linhas de tram, estava fechado. Você desce e tem que adivinhar onde a linha que você estava continua. Até tem placas e mapas, só que estão com etiquetas e pichações. Evite a cidade até outubro se não quiser ficar carregando mala/mochila. Em 3 meses, na estação de trem do campus, foi instalado um novo trilho e colocado letreiro e auto-falante. Cheguei com 2 e fui embora com 3 plataformas. No final, a estação de trem seguinte começou a ser reformada e, com isso, colocaram ônibus para fazer a ligação entre as estações e encurtaram a linha, obrigando-me a fazer uma baldeação para chegar em Frankfurt. O pior, no entanto, é que tem menos ônibus do que trem, quem não sabia (a maioria franceses) fica esperando mais de hora pelo ônibus. No dia que voltei das férias cheguei à noite, chovia muito e o pessoal, sem reclamar, saiu na chuva e ficou esperando no ponto do ônibus pelo menos 46 minutos. Tenho dúvida se aqui as pessoas aceitariam tão fácil essa condição.
domingo, 8 de junho de 2014
Breve Registro
Esta é uma embalagem de pasta de dente - não tem caixa, todas informações estão impressas no tubo plástico - sendo que aqui o tamanho é 75ml. Tanto esta marca quanto outras usam embalagem secundária (a de papelão) no Brasil. Não consegui encontrar motivo relevante para ainda termos a caixa. Fica para a volta, perguntar para os SACs o motivo.
domingo, 30 de março de 2014
Mão exposta na janela pra...
Entendo que se deva ser neutro em toda pesquisa. Também sei que qualquer pesquisa com pessoas só pode ser feita depois de aprovada, sendo que no pedido é preciso informar o grau de constrangimento de quem é entrevistado - podendo a potencialidade do constrangimento atrasar sua aprovação ou impedi-la, mas em determinadas situações é uma lástima manter-se na estrutura programada.
Refiro-me a existir alguém (quanto mais o alto índice apresentado) que atribua à roupa ou ao comportamento da vítima o motivo da violência sexual (lembrando que não é só estupro que incomoda ou é violento).
Fica a dica para as próximas entrevistas estruturadas: pense que tanto "sim" quanto "não" são respostas e desenvolva outras, sem medo de ser xingado. Exemplo:
- O senhor costuma andar com o dorso nu: ( ) sim ( )não
- De que forma o senhor costuma usar a camisa: ( ) dentro da calça ( ) fora da calça
- O senhor considera que o comportamento da mulher incentiva o seu estupro: ( )sim ( ) não
- O senhor considera que a roupa utilizada pela mulher incentiva o seu estupro: ( )sim ( )não
- O senhor uso o dorso nu para que ele fique mais acessível ao toque dos outros: ( )sim ( )não
- O senhor coloca a camisa pra dentro da calça para deixar a bunda mais acessível: ( )sim ( )não
Eu ainda acrescentaria o que o ser entende por violência sexual - porque xingar, passar a mão etc também são violência se não houver expresso pedido.
Lembrando que não é porque se está em uma festa ou no carnaval que se está à disposição para qualquer coisa com qualquer um, e que - como já vi muitas vezes - não é porque se canta a música que o abrir a boca seja tolerar um beijo.
O lado positivo da pesquisa é fomentar a discussão sobre algo presente na rotina brasileira, pena que ficou "só no estupro", pois tanto comentários sobre a vida alheia quanto forçar o ato em si são nuances de uma mesma violência.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Dando Bolo no Peregrino
Choveu muito e, em seguida, abriu sol. Foi uma semana de mudança de trajeto – uma buzina insistente lhe obrigou a olhar para trás e perceber possível tentativa de assalto, depois, ali próximo, uma mulher ofereceu carona no guarda-chuva e contou que tinha medo de passar naquele tão conhecido lugar. Entendeu o recado e mudou de caminho.
Algumas quadras a mais e dezenas de zumbis pelas ruas. O termo certamente não é o mais apropriado, mas como descrever pessoas em trapos, com olhar e andares vagos? Bem, novos caminhos, novas vivências. Em frente a um hotel, fãs de algum artista estrangeiro aguardavam. O pedinte tinha um isqueiro. Percebeu que os homens fumando não falavam português, dirigiu-se às meninas que lhe disseram “você não é mais pobre”.
Lógico que o homem ainda era pobre, a adolescente referia-se ao esculacho do programa da Prefeitura: moradia + 3 refeições + R$15 por duas horas de capacitação. Receber R$ 7,50 a hora, sem precisar comparecer todo dia e, mesmo assim, ter comida e casa garantida, nem profissional especializado consegue – resta saber qual o raciocínio para pensar que a pessoa vai largar o vício e essa vida para ganhar menos e passar por mais privações.
Raciocínio simples: R$ 7,50 x 220 horas mensais = R$1650,00, remuneração que o INSS já considera intermediária, com desconto maior: o trabalhador celetista tem pelo menos 6% de desconto de VT e, nesta faixa, já desconta 9% de INSS, ou seja, só quem ganha R$1941,00 por mês tem o líquido de R$1650 – mas ainda assim tem que pagar por moradia e comida.
É esperar para ver se vai dar resultado, tomara que dê, para não ser mais dinheiro jogado fora, privilegiando quem “chuta o balde” em detrimento do que se sacrifica. Doença? Em alguns contextos, difícil saber o que é mais doentio, se permanecer ou fugir, só que nesses contextos não se mexe, nem nos mais simples que atingem a todos.
Banheiro público a cidade continua sem. Daria dignidade a todo mundo e melhoraria inclusive a mobilidade das pessoas – não dá para pensar que obrigatoriamente as pessoas não saberão usar, nem achar que os estabelecimentos comerciais precisam disponibilizá-los.
Falta de banho dificulta a socialização de qualquer vivente, se não estão ainda exigindo que os empregadores ofereçam chuveiro, para melhorar a convivência dentro do transporte público, nada mal se houvesse a sua oferta desvinculada do pseudo cárcere privado dos abrigos – mesmo que sendo pago a valor simbólico.
Afinal, o que faz uma pessoa sair cedo de casa, ficar em média 2 horas de pé num transporte lotado, trabalhar o dia todo, voltar à noite, quase não ver família, viver em ambiente violento e, mesmo assim, seguir as regras sociais? Há estudos de antropologia baseados em uma ideia totalmente contrária ao programa, em que se valoriza o conhecimento de pessoas que dão certo, apesar das adversidades, como forma de compreender seus valores para multiplicar o modelo - mas recebem menos financiamento e vendem menos jornal, devem dar menos voto também.
“Situação de rua” dizem que é o correto, mas é também uma crítica a quem possa ter preferido as estrelas à sociedade. Aquele homem que abordou a menina poderia ser um desses, um peregrino sem vício ilícito, como sempre houve.
* * *
Não era essa a motivação do texto, mas o bolo – ou melhor - os bolos deixados em cima de uma lixeira.
Como estava dizendo, sexta-feira choveu forte, depois abriu um sol muito forte também, ou seja, a lixeira de plástico, grudada no poste em uma altura superior a um metro do chão, deveria estar limpa quando colocaram dois bolos lindos, daqueles redondos, feitos no fogão, em cima dela. Duas vezes pelo menos 20 grossas fatias de um bolo dourado.
O lugar era bem próximo à faixa de segurança, em um cruzamento em que o pedestre nunca tem vez, é preciso esperar que o sinal abra e não venha mais carro – ou então que haja congestionamento para driblar as frenéticas motos.
Naquele horário não havia ninguém. O primeiro impulso foi querer chegar mais próximo, para sentir o cheirinho de fresco. Com sono se faz cada coisa... e se mais perto não desse para segurar a vontade de provar? Comer comida do lixo? E nada dos carros passarem, nem a vontade. Rato não subiria ali, barata facilmente, mas por que se daria ao trabalho com tanta oferta largada nas calçadas e sarjetas? Assim que possível, a rua foi atravessada e a lixeira ficou para traz. O desejo permaneceu como companhia.
Se a ideia era que alguém pegasse o doce, por que não embalou? Por mais que pessoas remexam o lixo, será que expor daquela maneira seria adequado? Não havia ninguém para oferecer, caso estivesse bom? E se não estivesse próprio para consumo, por que deixar ali? Por que a tendência é desconfiar do que é ofertado, ou do que se consegue sem esforço consciente, como se não houvesse merecimento ou fosse preciso desgaste para ser digno da benece?
Aqueles dois lindos e apetitosos bolos, em cima de uma lixeira teoricamente limpa, um deles encostando só no outro bolo, ainda incomodavam. Doação em dobro, feita pela metade. Alguém cozinhou muito mais do que precisava, ou estava de sacanagem colocando ali? Não são todas as perguntas que têm resposta.
quarta-feira, 12 de março de 2014
Rosinho
Introspecção. Sabe o vazio do momento em que tudo é possível, a paralisia ante a pouca informação para priorizar a avalanche de conteúdo? O convencer-se de que há algo presente que deve ficar para trás?
O momento era esse, de aguardar.
Mais uma vez.
Uma medida de Leite condensado.
Chocolate geralmente em pó e/ou uma gema peneirada.
Manteiga ou margarina, bem pouca.
Misturar, mexer até desgrudar do fogo.
O de chocolate conhecia como negrinho, o sem chocolate era o branquinho. Receita de infância, daquelas rápidas, não tem muito que pensar, todo aniversário tem, e a criançada enrolando e não comendo vai aprendendo a ajudar e a controlar-se. Já foi assim, ao menos.
Avisaram ser politicamente correto, agora, “brigadeiro preto” e “brigadeiro branco”. Um horror referir-se assim ao doce! Silêncio, preconceito de quem, afinal? Branco é branco em espanhol; preto é negro e a fronteira nem importava tanto assim. Mas ali de nada sabiam, nem do “brigadeiro, gostoso e solteiro”, uma tentativa de conquistar o voto feminino no passado, época em que cada evento tinha seu doce.
Nada como o esquecimento para permanecer num céu de brigadeiro. Se melhorar, só estraga pelo tempo perdido sem. Conheceu, então, o de cor rosa – bicho-de-pé. Contaminado com anilina? Não, é que ele é bom como coçar o pé, não dá para parar. Tá. Coçar ocupa, não preocupa e o vazio é preenchido. Só, nem gema que alimenta tem.
Falam que saudade só há em português, mas em todas as culturas encontra-se sua manifestação. Difícil é encontrar leite condensado como o que temos aqui. Viver sem, sempre dá e há laços que nenhuma tensão rompe, nem a da convivência – por maior que seja a saudade do que já foi, por mais distante que estejam os negrinhos, branquinhos e rosinhos, eles nos acompanham.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Delirando em jejum
- 5 anos sem um hemograma?
Afastava a apreensão mantendo-se em dúvida se o que mais lhe incomodava era a cara de espanto ante o ultrassom ou a condenação sumária à mamografia e, agora, mais essa: mas paciente é quem tem paciência, melhor não mencionar que nos cinco anos havia estado lá.
Os dias estavam difíceis, antecipou o check up em um ano de carnaval tardio. Quando finalmente atenderam do outro lado da linha, não conseguiu ler o que estava escrito. Digitalizou os documentos (sim, todos pediram o tal hemograma, com letrinhas ao lado, mas iria fazer uma vez só) e a clínica, além de poucos atendentes, também já estava sem espaço para receber arquivos.
Menos trabalho ir pessoalmente do que ir a qualquer outro endereço. Saia da rotina, sugeria o horóscopo da revista da recepção. Bem, era o que de certa forma iria fazer. Ela e tantos outros, alguns viajando, talvez os profissionais dali porque não, não era possível fazer tudo no mesmo dia – nem atendendo durante o carnaval.
Dos males o menor, havia compatibilidade entre água e jejum. E que sede vinha sentindo! Mais agora do que no calor, o calor que ainda fazia, é verdade. Caminhando, percebeu as duas câmeras e o vazio entre elas. De repente, “bom dia” e uma flor. O rapaz da câmera perguntou se havia gostado e ao responder-lhe passou um ruidoso ônibus.
Isso faz alguns dias. É que ouviu agora que a vida é feita de tempo, como também que o tempo sempre está lá. São as pessoas que o medem que passam, não ele.
E ela havia passado naquele vazio, não desviou, nem recusou a flor. Ficou de lembrança. Não se lembrou o que havia acabado de falar e tentar repetir não conseguiu, tivesse falado diferente, mesmo assunto, de outra forma, teria sido melhor. Fazer o quê? Na confiança de não haver edição, participou.
Agora, pensa que a edição não seria má ideia. Quem sabe um dia se veja – vai estar no YouTube, disseram. E ouvir é o que mais tem feito. Por isso sabia que pessoas estavam fazendo perguntas por lá, algo como “quer ser feliz?”, “quer ganhar na loteria?” e não recebiam respostas, ouviam negativas, ou o “obrigado” com entonação de recusa.
E se fosse pra valer? A flor foi uma surpresa, tal como a vida oferece. Com qual pressa caminham na vida pessoas que recusam felicidade ou o resultado da loteria? Foco ou alienação?
Romanos já tiveram a sua época, tempo em que só poderosos tinham roseiras: rosas só nascem uma vez, a não ser que sejam podadas. A escolha de um terreno destinado para o seu plantio, o cuidado em observar galho por galho e saber o momento certo do corte para que se perpetue a florada é simbolismo esquecido, não há momento que valha a morte de um ser, menos ainda rarear o que é belo.
Em vaso ou na terra, flores retomam o significado, são mais difíceis de serem mantidas – flores sem raízes não são feitas para sobreviver. Mas ali, frente à câmera, acha que agradeceu, não se lembra, afastava a pressa mantendo-se em dúvida no que falar.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Sem sugestões, melhor o silêncio às reclamações
Preenchimento do tempo. Viver a vida. É nisso que a (im)paciência se manifesta. Estava em uma fase de parênteses, abandonara as aspas. E não repetir lhe permitia preencher o tempo que não tinha, mas era obrigada a ceder naqueles momentos de (in)competência. Competência em conferir, incompetência que faz esperar, competência em corrigir. (Im)Perfeições (des)mentidas.
Sorrindo ou reclamando, o processo é o mesmo. Insistir, desistir, persistir (aos que desistem é burrice, aos que insistem é perseverança). Escolhas (in)certas, dessas que podem ser mero instinto aos que não vêem outra saída (nada além das aspas), revelam a (des)necessidade da (im)paciência, de (re)pensar o dia, de (re)lembrar o que acabara de fazer e (re)organizar as prioridades.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
A real da realidade
Possibilidade de escrever sua própria trajetória de vida, não consigo entender de outra forma o conceito de democracia.
Tenho convicção de que todos temos a vida que pedimos a Deus, uns de forma mais consciente que outros. É a tal lei da ação e reação (argumentação para os ateus). Concorde se quiser – apenas esqueça o blá-blá-blá da culpa e pense que a responsabilidade pelos atos e omissões é uma constante permissão, a cada momento, para mudar o curso da vida.
Por que escrevo isso, após tanto tempo sem manifestar-me por aqui? Somos responsáveis também por quem nos representa, independente do voto nas eleições. As notícias e a mesquinharia de argumentos reproduzidos na mídia estão tirando minha tranqüilidade... A inabilidade política do governo federal deixaram-me em estado de choque por uns dias, agora melhorei um pouco, estou conseguindo até me manifestar a respeito:
Não vou entrar no mérito do programa “mais médicos”, números são facilmente manipuláveis e, da forma como está sendo conduzido, só dá para perceber que tudo – menos saúde da população – é o que está em jogo para as partes envolvidas. (saúde é não ser contaminado pela poluição/falta de saneamento ou ter acesso a serviço médico, com procedimentos básicos devido à poluição? Bem, deixa pra lá...).
O jeitinho dado para a implementação do programa é estarrecedor. Refiro-me ao drawback atípico de cubanos (se você preferir, pode ser leasing também). Não faz muito tempo houve manifestação do MPT de que não era possível monitorar o deslocamento dos médicos cubanos dentro do território nacional, nem pagar salário de USD40. Um espanto que ninguém dentro do governo tenha se lembrado que existe uma Constituição prevendo salário mínimo e direito de ir e vir (mais abrangente que a mobilidade reclamada nas ruas).
Pouco tempo depois, é anunciado novo acordo (dessa vez já assinado). O MPT alegou não ter conhecimento do conteúdo para poder opinar, pela imprensa descobre-se que 25% a 40% do valor pago ficará com o profissional e o restante vai para (?) a título de (?).
O intermediário (OPAS e/ou CUBA) ganhará mais do que quem trabalha. Ok, sei que isso é comum nas relações comerciais com finalidade de lucro – tudo a ver com comunismo e acesso à saúde. Mas se pensar na estruturação, o país está delegando a terceiros o preenchimento de vagas na área da saúde. Alguém arrisca qual a diferença de pedir para um hospital beneficente alocar pessoas num posto de saúde e uma pessoa jurídica de direito internacional alocar pessoas num posto de saúde? É... o mesmo modelo de privatização da saúde, só que no segundo caso os recursos não ficam no país e é feito por quem sempre criticou o modelo.
Acho lamentável que a discussão se restrinja entre o “médico italiano que ficará no litoral potiguar” e o “médico cubano negro vaiado” (confesso, baseio-me no Facebook). Vou desconsiderar que o censo de municípios com vagas foi apresentado apenas após a divulgação do programa “mais médicos”, tornando possível às prefeituras substituir seus quadros pelos médicos que serão pagos pela União. Também vou desconsiderar que houve dois recrutamentos de 12 meses para treinamento de médicos da família, divulgados como prioridade pelo ministério da saúde, mas que só agora, na sua terceira edição, terá remuneração equiparada à do programa “mais médicos” (vide Provab). A gravidade da renúncia à soberania acatando piamente o que outros entes internacionais dizem (ausência de revalidação do diploma) é por demais óbvio e não vou usar nosso tempo falando disso.
Vou basear-me apenas no aspecto humano: vou acreditar que o profissional que está chegando conseguirá algum resultado, que terá jogo de cintura para sobreviver às milícias e ao coronelismo sem se corromper e a população ficará satisfeita com o seu trabalho – e que sua substituição de tempos em tempos não afetará o atendimento às pessoas. Como o contrato de trabalho é temporário, ele só permanecerá legalmente no país se casar ou tiver filhos aqui. Será uma pessoa ética, fará questão de validar seu diploma para continuar atendendo, mesmo que a população local não entenda, após 6 anos, que o médico deixou de ser médico.
Mas e os cubanos? O que acontecerá ao brasileiro, filho de mãe ou pai cubano? Terá que abandonar o país para não ficar órfão? O governo vai descumprir a promessa de dar visto permanente ou asilo? Vai romper relações com Cuba? Mistério... Estou exagerando? Quatro mil pessoas durante seis anos e ninguém vai se envolver com qualquer brasileiro(a)? Não posso acreditar que sejam todos previamente esterilizados! Pior do que aquelas vaias infelizes no aeroporto de Fortaleza é a conivência com a exploração. Como pode o governo garantir que não dará visto para nenhum cubano? Se estão sendo contratados merecem receber o mesmo que os outros. Vaias foram para todas as nacionalidades, mas só os cubanos vão receber menos. Por quê? Por que, mais uma vez, a Constituição é ignorada? Teremos que torcer para o comunismo continuar na ilha para que não haja passivo trabalhista no futuro? Cadê o Ministério Público?
Não sei a quem pode ser benéfica a situação, senão aos que disputam poder. Sem dúvida, a discussão é conveniente por diminuir o enfoque da mídia no caos econômico que o país está. O modelo inglês de pagar menos para quem atende pobre (um salário que só estrangeiro se submete) parece não ter volta enquanto houver crise de desemprego no hemisfério norte, aqui é um pouco pior pois não há seleção do estrangeiro que vem e ele é desencorajado a ficar.
Acredite, gostaria de estar sentindo menos vergonha da situação atual, principalmente pela institucionalização oficial do cidadão de segunda classe, seja o médico cubano, seja a população que vive em condições precárias sem perspectiva de melhoria. Ajude-me, se puder, a achar algum argumento que relativize a situação, mas sem esquecer o caput do artigo 5º da Constituição:
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos seguintes termos: (...)”(grifei)
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Todo dia já é dia do homem
Os índios estavam em extinção: criaram o dia do índio.
O comportamento feminino precisava ser valorizado: criaram o dia da mulher.
Dia da Hombridade seria mais apropriado do que “dia do homem”, uma reflexão (ou memória) de como as pessoas deveriam ser - mas os presentes seriam mais raros, muita gente não entenderia o que estaria sendo celebrado e celebrações temáticas existem porque ajudam no controle de estoque:
Janeiro – ano novo (e impostos como IPVA e IPTU encolhem o orçamento)
Fevereiro – carnaval
Março – volta às aulas, troca das coleções (olha! a moda muda no mês do dia da mulher!)
Abril – páscoa
Maio – mães, um feriado (trabalhador)
Junho – namorados, um feriado (corpus cristi)
Julho – [?]
Agosto – pais
Setembro –troca das coleções, um feriado (independência)
Outubro – criança, um feriado (nossa senhora) e o dia do professor
Novembro – de 2 a 3 feriados (finados, independência e consciência negra)
Dezembro - natal
Se pensarmos na origem das primeiras celebrações, relacionadas à natureza, não há um dia sequer sem o domínio do homem (com predominância masculina também).
Lógico que cada um comemora o que e como quiser, mas eu ando um tanto quanto o louco do chapeleiro no país das maravilhas: celebro os desaniversários com quem aceitar compartilhar o chá de hombridade.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Sem lenço e sem documento
Em 1992 fui com colegas do colégio pedir a saída de Collor. Eles levavam seus instrumentos de percussão e eu ajudava carregando as baquetas. Chegando na área da concentração, um homens nos organizou em roda e, ficando no centro, pediu para que repetíssemos o que ele falava. Lembro que não concordamos com o seu discurso e permanecemos calados. Ele, depois de insistir e irritar-se conosco, que não formávamos coro com ele e ainda fazíamos barulho nos tambores, nos colocou em cima do carro de som.
O discurso desconexo com o propósito da passeata e as pessoas que ali estavam em animada conversa não apenas aceleraram meu retorno para casa, antes mesmo do fim do protesto, como me mantiveram afastada das multidões reivindicatórias.
A manifestação do dia 18, que me fez ficar pelo menos uma hora sem conseguir fazer nada a não ser ouvi-la, obrigou-me a refletir. A passagem gratuita considero reivindicação utópica, alguém pagará a conta. A inflação cada vez mais presente – não apenas no transporte – parecia-me reivindicação mais justa: é como campanha salarial, briga-se por aumento, nunca por menos contas.
Por outro lado, foi a pedido do governo federal que o reajuste das passagens em várias cidades do país foi postergado para junho. Seja por inabilidade ou soberba, os atuais governantes entregaram de bandeja um prato cheio para uma até então inexistente oposição atacar indiscriminadamente qualquer governo. Em São Paulo, foram atingidos o PSDB do governador (metrô) e o PT do prefeito da capital (ônibus), partidos que lideram há anos a rixa política.
Não bastasse esse cenário, o jeitinho para consertar os números inflacionários não funcionou. Para mim, pior do que não ter mobilidade urbana (o que só se consegue tendo infraestrutura na região em que se mora, inclusive possibilidade de lazer e trabalho – e não apenas andando de graça horas a fio no transporte público deficitário) é a mentira, a solução econômica de mascarar a inflação adiando artificialmente o inadiável.
A conduta ainda inábil ou soberba dos governantes e a violência a queima-roupa venceram minhas restrições a passeatas. Paciência se ninguém quer se responsabilizar pela organização das manifestações, se a esquerda diz que a direita está no comando, se a direita diz que a esquerda não assume porque essa foi a estratégia usada em outros países hoje falidos: fui pra rua para dizer que também não estava satisfeita.
Escolhi a passeata “temática” contra a PEC 37, que ocorreu no sábado 22. E devo ir em outras que tenham um assunto predefinido com o qual concorde. Em solidariedade aos prestadores de serviço, prefiro manifestações fora do horário comercial. Não vi clima de festa ou a alienação criticada em rede social; as frases descontraídas são característica nossa e se não houvesse não estaríamos no Brasil. Mesmo o “quem não pula quer a PEC”, que antes era “quem não pula quer tarifa” tem o seu sentido: ajuda a integrar as crianças e a afasta o cansaço nos momentos de parada, já que quando se senta falta rua para todo mundo e pular é mais agradável do que ficar parado.
Durante todo o trajeto (um pouco mais de três horas de duração) tudo transcorreu tranquilamente. O mesmo esquema de 1992, de um falar e os outros próximos repetirem, foi utilizado. Tinha um megafone, de qualidade muito ruim e quem nele falava não esperava a frase ir até o fundo, nem repetia o que havia dito, dificultando a difusão da informação.
Sem violência, a imprensa apenas informou que houve passeata com 35 mil pessoas. O número pareceu-me modesto, já que na Roosevelt, olhando pra trás, via-se a Av. Consolação repleta de gente e cartazes e, por celular, um grupo ao meu lado comentava que alguém de suas relações estava ainda na Paulista, que ia ficar para o final da multidão por causa do jogo, que estava em 4x2. Também não sei o que aconteceu que o grupo se dividiu: eu fui para a Sé, que não chegou a lotar; ao longe os gritos de protesto eram ouvidos e ninguém sabia onde os outros estavam. Frases com rima e já divulgadas na Internet eram as mais repetidas, mostrando que é preciso sim uma prévia organização do movimento para ele funcionar. Quem organizou? Mistério...
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