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domingo, 22 de maio de 2016

Diálogos de Sábado à Noite

- Aqui é a Paulista?
- É.
- Parece o Brás, você sai do metrô e já tropeça em camelô.

A menina equilibrava-se em um salto fino. Caminhava, falava e observava o movimento frenético do vendedor de churrasquinho de gato fazendo fumaça para chamar a clientela. O diálogo acabou porque ela tropeçou de costas nos sacos de lixo que ocupavam a calçada. E eu cultivando a paciência, parecia ter tido êxito ao desviar do abre e fecha das panelas do milho (é um corredor polonês de carrinhos de comida), mas com o tombo dela diversas lufadas vieram em minha direção. Não lembro deste marketing desrespeitoso no Brás, só dos sacos de lixo atrapalhando a calçada.

sábado, 12 de março de 2016

Aos cientistas de plantão

Acabo de matar o segundo Aedes Aegypti que vi na vida. Ver o mosquito foi parecido com a entrada em um museu, quando se fica em frente às obras de arte já conhecidas. Faz umas seis semanas que aconteceu a primeira vez. Ao contrário dos outros mosquitos, que voam ferozmente contra o jato do inseticida, foi fácil matá-lo - sem reação alguma no vidro da sacada.


Mesmo sem vestígios de sangue, o ineditismo de vê-lo em casa abalou as estruturas, foi no dia em que a chuva começou e que também coincidiu com a mudança das plantas na portaria. Foram 5 mosquitos em poucos dias. Fiquei dias queimando veneno em espiral até achar que estava tudo bem.

Hoje, ao ligar a luz da cozinha, vi que tinha um inseto escorregando na parede: outro Aedes. Ele tentava pousar e caía no chão, bastou uma pisada certeira. Faz exatos 10 dias que a parede foi pintada, a tinta é daquelas fáceis de limpar, o que a deixa com um acabamento brilhoso. O que não consigo definir é se é melhor ter uma parede em que o mosquito não pára ou se é melhor um lugar em que ele fica paradinho.

Tive um colega que estudava armadilhas para Aedes Aegypti, em pneus e ambientes escuros, ele colocava fita dupla face, para ovos e fêmea ficarem presos. Aqui é o contrário: o mosquito não consegue pousar. Em ambientes com poucos lugares para pouso, ele cairia fora ou ficaria exausto. Será?

Biólogos e químicos de plantão: haveria um revestimento a ser utilizado em casa capaz de afugentar o mosquito e outros insetos? Eu começaria a pesquisar em estruturas lisas e escorregadias, Já pensou? Simples assim para o mosquito não querer entrar em casa? Fica a dica, todos agradecem por pesquisas a respeito.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Baratas

Foi tudo muito rápido. Saía do ar condicionado de uma loja enquanto outro cliente entrava. Ao dar passagem começou a chuva de verão. Recuou permanecendo na vitrine, no fresco.

Havia pressa, sem dúvida. Guarda-chuva também. Mas ali ficou; a distrair-se. Então aconteceu. No meio fio, em localização que talvez estivesse se o relógio fosse seu dono, um homem de terno, na meia ponta, aguardava para atravessar a rua no momento em que a enxurrada se mostrava na parte superior da ladeira. Ele virou-se, certamente entraria na loja, porém elas foram mais rápidas.

Em desespero, atropelando-se umas em cima das outras - menos que vinte certamente não – fugiram da quente boca de lobo que alagava, as baratas. Elas entraram no primeiro lugar seco que encontraram: o vão escuro formado entre o tecido de mal caimento e a perna do homem.

A repulsa dominou a solidariedade e escondeu-se no fundo da loja, ficou sem saber o que aconteceu com o homem ou como é possível acudir alguém nessa situação. Pesadelos foram constantes nos dias seguintes, como um vídeo game, incansáveis baratas com diferentes poderes atacavam-lhe.

Certa noite, à sua frente, caminhava um casal com dois filhos. Conversavam em espanhol. Os meninos riam e corriam de um lado a outro: divertiam-se matando as baratas que encontravam pelo caminho. Viveríamos todos mais felizes se aprendêssemos na infância a brincadeira de matar baratas.

* * *

Talvez já tenha mencionado aqui a história acima, ocorrida em 2010. Em breve conto para vocês porque ela voltou a martelar-me a cabeça. Para mim, tão ruim quanto barata são os besouros que voam para o mar na lua cheia e ficam se batendo contra a parede, contra as lâmpadas e contra quem estiver na frente. E estamos na lua cheia agora? Brrrrr, pelo menos não estou na praia.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Início da noite na calçada do metro quadrado mais interessante da metrópole. Dois ambulantes na saída do metro conversam:

- Ha, ha! E tu pensa que ele foi ali pra tomar um café?
- Ele disse isso.
- Então tu pensa que ele foi ali tomar um café?

Nesse intervalo eu já fiquei imaginando o que viria, que a criatura havia ido na famosa franqueada tirar água do joelho, que demoraria para voltar. Pensei também que um dos dois estava cuidando da mercadoria da tal criatura ausente. Pensaria mais coisas não tivesse ouvido a mesma gargalhada:


- Ha, ha! Ele foi ali pra teclar zapzap.

No whatsapp eu não havia pensado.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O amor é lindo!

A história não é minha e não ocorreu exatamente assim:
 
A - Um pernilongo!
B- E dos grandes.
A - Desses você também gosta?
B - Eu também os estudo.
A - Tomara que ele te pique.
B- Você quer que eu receba uma picada de pernilongo?
A - Se ele te picar, ele não me pica - aí você vai poder estudar porque eu não vou precisar matá-lo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Antes da Janta

Três mulheres e um homem. Cada um fez o seu pedido após certa indecisão frente ao caixa. Isso eu não vi, mas deve ter sido assim. Percebi-os sentados nestas mesas em que um dos lados é grudado na parede, dois sofás em cada lado. Conversavam monossílabos aguardando a senha do painel anunciar que o prato estava pronto.

 

Os números foram chamados em sequência, com algum espaço de tempo entre eles. Levanta, levanta, fica em pé, senta e senta. Decide em qual canto da bandeija vermelha ficará a garrafa verde da cerveja. Senta, levanta, senta. Decide como equilibrar a garrafa verde de cerveja e faz igual, dentro da sua bandeija vermelha. Levanta, levanta, fica em pé, senta, muda de lugar, senta e senta.

 

Murmurinho e ninguém come. As quatro verdes cervejas iguais. Ninguém bebe. Sentado do lado contrário à parede o homem estica o braço segurando o celular. Todos sorriem para a foto.

 

- Quer que eu tire? - Perguntei.

- Não, obrigado. É selfie mesmo.

 

As garrafas se enconstam. Nova foto. Um come do prato do outro, antes do seu. Caras e bocas que dariam ótimas fotos. A minha também. Trocaram a receita e tive que insistir para ganhar o copinho de pimenta. Mexicano com maionese? Não peço mais.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Vendo a lua ao contrário

Era o segundo questionário, em apenas algumas horas. O primeiro fora mais simples, pôde ouvir a resposta dos outros e adivinhar as perguntas: queriam saber seu grau de satisfação com os serviços.

 

Com o bilhete que informava “de 474 para 470” em uma mão, e equilibrando a mala com a outra, foi possível dar o devido valor ao fiscal que lhe dissera onde descer (inclusive indicando uma baldeação que lhe poupou 15 minutos) e reclamar da falta de espaço para mala (talvez não conseguisse explicar, mas definitivamente ter que suspendê-la no pequeno espaço em cima dos bancos não era boa ideia).

 

O tom, o contexto, o local - tudo faz diferença na conversa. Perguntavam agora sobre sua vida. Melhor não criar caso, estava feliz por não ter precisado de tradutor. Horas depois, lhe perguntariam de novo, mas com a ressalva de que era apenas curiosidade, que poderia não haver resposta.

 

Assim, com discrição, ouviu parte da vida da outra pessoa, a que não se importava com a sua resposta. A outra, antes, que a tudo anotava, quis saber a sua religião. Não ter não era uma possibilidade – lhe foi atribuída uma. O espanto foi tanto que nem deu tempo de tentar revidar e usar a intérprete.

 

Perplexidade porque o óbvio ali não acontece. Perplexidade também pela obviedade do estranho. Depois, em uma vila sem trânsito, a briga entre carrinhos no supermercado. Onde não há dificuldade, os humanos as criam.

 

Chegar em casa às 18hs é qualidade de vida? E se a única opção for chegar em casa até às 18hs? Pontualidade é importante, sem dúvida –  principalmente quando o ônibus só passa a cada 2 horas.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ajeitando o passo

Saia justa. É essa a expressão usada. Nunca usou saia? Explico. Todos notam quando há saia justa. Se você está numa, você nem sempre anda como gostaria – pode precisar mudar a velocidade dos passos, também o seu caminho, pois escadas e assentos exigem cuidado. É preciso jogo de cintura para evitar constrangimentos,para que ela não suba ou para que ela não rasgue.

 

Por pouco não pôs saia. Os dias de verão estavam sempre com chuva, inevitável molhar-se - e pernas de fora são sempre mais agradáveis – secas ou molhadas – do que tecido grudando encharcado. Lembrou-se das escadas que subiria e desceria, lembrou-se do vendaval, e desistiu.

 

Saiu com sol, chegou com chuva. A sandália, que não estava justa, descolou. Faltava uma quadra. Havia o que fazer e havia horário. Viu o funcionário fechando a porta e gritou, ele deve ter pensado que estava machucada e aguardou, mas só estava cuidando para não tropeçar.

 

Horas passaram. Nem clips, nem cola resolveram. Alguns degraus e o outro pé também cedeu. Três corredores como opção para sumir dali. Andando pelos calcanhares, de tempos em tempos precisava baixar-se para arrumar o que o equilíbrio não permitia manter. Foi sábia a ideia de não usar saia. De repente, uma das solas descolou na altura do salto. Será que metrô aceita pessoas descalças? Se descalçasse não poderia experimentar nada na sapataria que fica em frente à catraca. Por mais limpa que a rua parecesse com a enxurrada, seu pé certamente não ficaria. O salto que não estava descolado grudou no chão e a tira embaixo da fivela rompeu.

 

Felizmente naquele meio-fio o acesso a cadeirantes estava garantido: arrastou os pés pela faixa lisinha da sinalização e atingiu a rampa. Só não contava com o relevo para os cegos: os dois pés foram ao chão. Com as sandálias dependuradas no tornozelo, esparramadas próximo onde os carros passavam, recompôs-se. Um rapaz solícito sugeriu barbante. Ele procurou, procurou e não encontrou nada que pudesse ser amarrado. Fumando ali próximo, uma mulher ofereceu o par de sapatilhas que estava usando, por ter outro na bolsa. Problema resolvido, mesmo sendo um número maior.

 

Até agora não sabe o que é menos provável: tantos estragos em tão poucos metros ou receber a oferta de empréstimo de um par de sapatos de uma estranha, com a informação de que sempre estava por ali e a promessa de devolver no dia seguinte. A sandália? Ficou lá, com suas lembranças - melhor nem arriscar com conserto.


 
Com quantas peças se faz uma sandália?

sábado, 11 de janeiro de 2014

Antes da filmadora selfie

Silêncio de biblioteca. Há 2 computadores ligados e disponíveis. A mulher resolve ligar o que está ao meu lado desligado. Tique com o pé no chão até digitar a senha de acesso. Enfrega as mãos e, sem cerimônia, começa a conversar com a tela. Percebo que não são interjeições, mas um diálogo alegre. E aí começa a sequência de "enters" frenéticos a ponto de atrapalhar a minha leitura. Acabo espiando, ela está no hotmail num texto comprido daqueles de dá sono. Ri solto. Trava uma luta final com o teclado, mas os dois sobrevivem. Resignada, troco a leitura pela escrita antes de voltar para a rua.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Coisas que só eles conseguem

Não era apenas o desconforto do calor, a readaptação forçada à rotina já conhecida, nem aquele torpedo, informando o “jantar casual” recém combinado pelo marido com colegas de trabalho para exibir a piscina que construíram neste verão, ela que nem sequer se lembrava do que tinha na geladeira. Era tudo junto mais aquelas crianças que não paravam de brincar, uma dentro e a outra fora do carro. Não queria buzinar, estava vendo que o pai simpático também conversava com a funcionária do pátio e ficava ali, sem poder sair do lugar e sem saber ao certo quem e em quais condições encontraria em casa.

 

- Ih, mãe, tecla “f”.

 

Em outro contexto explodiria, mas ali não dava, não com quem também era vítima da situação, sentia sede e fome e tentou diminuir o problema. Respirou fundo, certamente estava transparecendo a irritação e precisava acalmar-se.

 

- Como assim, tecla “f”?

 

- Ué, “f” de feliz. É só não dar bola.

 

Sorriu. Na sua frente, uma das crianças voltou correndo para dentro da escola, mantendo a porta de trás aberta, o que impediria qualquer manobra do carro. Ainda teria que esperar. Atrás, os pais já haviam saído de seus veículos e confraternizavam. Pegou o celular na bolsa e teclou:

 

“Boa janta, nós iremos comer por aqui e chegaremos mais tarde.”

domingo, 5 de janeiro de 2014

Pingando limão na urucubaca

Poderia ter estacionado em outro lugar, ali nem era o mais perto da porta de entrada. Pensou nisso quando viu as luzes da trava piscarem, andava realmente distraída naqueles dias. Em poucos minutos o temporal começou: tão forte quanto rápido. Finalmente acertara! Não apenas havia vários livros disponíveis na biblioteca, impossíveis de serem carregados a pé, como aquela ducha natural era mais do que necessária: ao invés de lavar, secava o carro.

 
 

Secava e aspirava, batia os tapetes – sempre discretamente. Particularmente nos dias de inverno, secar o carro afasta o frio mais do que lavá-lo em dias quentes possa parecer refrescar. Na cidade, o brilho de um carro encerado só é mais intenso, mas não dura mais do que o de um carro simplesmente seco após um temporal.

 

Os movimentos eram mais ou menos cronometrados: abria o guarda-chuva na garagem para escorrer o excesso d’água, pegava o pano no porta-luvas e começava o trabalho. Primeiro espelhos laterais, depois as laterais. Com o calor do motor, o capô seca muito rápido, o pano já úmido finalizava sua função ali. Depois, com novo pano, secava o resto, começando pela parte de cima. Para esse processo, ruim mesmo, que só marca a sujeira e não molha o suficiente, é o chuvisco. Pelo menos até aquele dia.

 

Naquele dia, em que estava satisfeita e sem guarda-chuva, mudou a rotina. Dias depois é que foi perceber a mancha. Talvez tenha sido algum trovão, talvez tenha sido um galho pesado com o vento, talvez aconteça todos os dias, mas um passarinho marcou de branco a lataria de uma forma que nem água, nem sabão, nem esponja macia tirou.

 

Sem querer contratar um polimento, fez usca rápida na Internet e descobriu, além de um determinado produto (testado com restrições), que limão poderia lhe salvar. Após uma limonada, esfregou e esfregou a casca e o final do sumo na mancha. Tocou o telefone e esqueceu da vida. O limão secou e grudou de tal forma que ampliou o problema, acrescentando relevo à mancha. Resignou-se.

 

Sorte foi ter novo temporal e, ao passar o pano, onde havia relevo, a mancha desfez-se. Resta agora usar mais limões e beber mais limonada.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

domingo, 22 de dezembro de 2013

E culpam a burocracia, aff.

1º dia (após uma semana procurando com quem falar):

- Oi, vim saber como é o procedimento...
- Nossa, é super tranquilo, fazemos tudo por aqui, pode deixar.
- Mas você não precisa nem anotar os dados, vai se lembrar de cor?
- Ah, pode deixar seu nome então.
- Vou deixar cópia dos documentos que pensei que fossem necessários. Meu telefone e e-mail estão aí, caso precise de alguma coisa, avisa que venho correndo, talvez o prazo já tenha expirado.

2º dia:

- Oi, acho que este documento pode ajudar vocês, não sei se já houve o encaminhamento...
- É, eu lembro de você, esteva aqui há pouco tempo, não foi?
- Há 3 dias.
- O que era mesmo?
- Eu deixei meus dados para iniciar o procedimento. Vim ver como está.
- Fulana, esqueci de comentar com você. Essa moça esteve aqui, já abri a pastinha dela, você sabe como é o procedimento?
- Passou o prazo faz 2 dias.
- Mas quando eu vim, então estava no prazo...
- Tem certeza não foi em outro dia?
- Se fosse há mais tempo, mais ainda no prazo eu estaria, certo?
-É...Deixa eu ver o que você precisa.
- Eu havia trazido estes documentos e, agora, recebi mais estes.
- Então é só preencher o formulário. Anota o endereço da página e me traz preenchido.

3º dia:

- Oi, eu de novo. Li o formulário e não foi o que pedi. Trouxe impressa a página com o processo que preciso resolver.
(a criatura lê com muita atenção o papel, como se não soubesse do que se tratava)
- É...esse é outro procedimento. Só me fala o número do seu documento.
- Mas e a assinatura dessas pessoas do formulário, não serão necessárias no outro procedimento também? Falarei com estas pessoas hoje, será mais rápido que você tentar recolher individualmente as assinaturas.
- Não, não é preciso. Só veja se tem como pedir fora de prazo, acho que não vai dar para fazer nada.

4º dia:

- Recebeu meu e-mail?
- Recebi.
- Já enviou?
- Sou eu quem envia? Enviar o quê?
- Estou falando em envio, mas vim ver se está tudo certo, se houve o procedimento foi encaminhado.
- Não foi. Como a data de início do pedido vai ser postergada, para que fique no prazo, não fiz nada.
- Mas a data vai ser postergada no papel, na verdade tudo continua como antes, a necessidade não ficou menor porque o prazo vai começar depois.
- Então do que você precisa?
- Que seja dado andamento ao procedimento.
- Vai ser fácil, tenho um modelo aqui, só precisa dessas assinaturas.
- De quem? Das pessoas que eu te disse que iria encontrar e você disse que não precisaria?
- Hmmm.
E a saga continua...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pub tupiniquim


Estava ali como o bendito fruto, o único entre as mulheres. Bebia e ouvia – mesmo tendo o que falar. Aceitara sentar-se de costas para o movimento, para instruir-se com os comentários femininos. Percebeu que havia bebido demais ao notá-las saindo, cada uma por vez, da mesa. Teria ouvido certo?

 

Se as visse aos pares seria bebida, sim – e nada teria notado – era preciso de uma vez por todas esclarecer: atônito, contrariando tudo que sabia a respeito, confirmou que elas iam sozinhas ao banheiro. Revoltou-se, noites e noites de confabulações a respeito jogadas fora e um enigma a menos para tratar com os amigos, ou teria encontrado um a mais... Em nome da manutenção da amizade, resolveram todos ir dançar.

 

Na pista, tiraram fotos. Algumas do grupo, não todas. Colocar-se desapercebidamente no registro dos outros exige coordenação, rapidez e sintonia. Dane-se o ruído das gargalhadas. Vantagens do anonimato... Em uma das fotos, a funcionária da casa que tentava cruzar a multidão equilibrando copos usados foi parada pelo grupo instantâneo formado à sua frente. Espirituosa, contorceu-se em direção ao celular e sorriu.

 

A banda era muito boa, conversaram o tempo todo comentando isso. Mas cantaram também, os parabéns, entre uma música e outra. Já o DJ não foi unanimidade, serviu de pretexto para formação da fila feminina. Por onde passavam atraiam os olhares, na certeza de que não elas, mas a convicção quanto ao destino previamente combinado, era o assunto deles.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Tirando da gaveta

Em fevereiro do ano passado, participei de um concurso cujo desafio era escrever uma história com 100 palavras. 100 textos seriam selecionados para comemorar os 100 anos da Universidade de Coimbra em Portugal. O meu não foi, mas limpando as pastas do e-mail gostei de voltar a lê-lo e preferi colocar aqui a deletá-lo pra sempre:

A melhor etapa de sua vida
Saudade de casa e dos amigos queridos, todos distantes. Primeiro dia de aula. Primeira vez longe de todos. Não só a Universidade, mas também a cidade são, para ele, novidade. Está inseguro, sente medo. A expectativa quanto ao futuro embaralha-lhe o pensamento. Teria feito a escolha certa? O dinheiro seria suficiente? Os professores e colegas entenderiam a sua pronúncia? Seria o único da turma naquela situação?
Formatura: família, amigos antigos e amigos novos: todos presentes – pelo menos em pensamento. Sente-se em casa. Feliz pela trajetória percorrida, preparado para o que lhe exigir o mundo. É com tristeza que irá regressar.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Museu para todas as idades e gostos.

- Assim?
- Isso, coloca o dedo aí. Agora roda. Pra baixo, em sentido horário. Não! Tem que ir até o final, até aqui ó.
- Mas dói o dedo, pai.
- É costume, tem que fazer isso com todos os números até aqui. Só depois é que completava a ligação.
 * * *
O garoto devia ter uns 10 anos. Olhava incrédulo aquele aparelho preto em sua frente. Eu estava em outro, parei de ouvir a propaganda da Kolynos para ver a cena do pai apresentando o telefone ao filho.
O deslumbramento de crianças e adolescentes com máquinas de escrever eu já havia presenciado em uma exposição no Caixa Cultural, mas que a atual geração desconhecesse telefone “de discar” não havia me ocorrido.
O pai esqueceu-se de contar para o filho que antes de discar se conferia pelo gancho se havia sinal, que as famílias precisavam escolher entre comprar um carro ou um telefone – e que linhas telefônicas eram alugadas, já que se esperava anos para conseguir alguma.
* * * 
Graças à belíssima montagem da exposição “Rubem Braga – o fazendeiro do ar” pude ver a cena acima. O Museu da Língua Portuguesa já tem em suas exposições a característica de trazer o contexto do autor ao visitante, incentivando a leitura.
Na exposição sobre Rubem Braga até quem não sabe ler se diverte. As máquinas de escrever, algumas que podem ser tocadas, outras com tablets no lugar na folha de papel, remetem às antigas salas de redação. Essa também é a ideia da mesa com os telefones, cada um com uma gravação de rádio diferente. Os mais observadores notarão que os aviões feitos de jornal, pendurados no cenário do ambiente de trabalho do cronista que cobriu a segunda guerra e a revolução de 30, transformam-se em passarinhos na aconchegante sala de visitas, cuja mesa possui duas telas interativas com relatos de seus amigos famosos. Ao final, é possível interagir com passarinhos digitais, em um videogame eletrônico projetado na parede. Por que fazendeiro do ar? Isso não conto, tem que ir lá para entender.
A dica é ir no final de semana logo que abre a exposição: 10hs. Além de conseguir ingresso para uma sessão do filme em horário próximo (sim, é o mesmo filme e os mesmos poemas da inauguração), exatamente porque as pessoas que entraram estão na sessão, a exposição temporária fica com muito pouca gente. Se você for ver o filme, chegue às 10:20 para receber o ingresso das sessão das 11h. Durante a semana têm escolas visitando, nos finais de semana, às 12 e às 14, tem também visita ao prédio da estação da Luz. Programaço! Até 1º de setembro.

sábado, 22 de junho de 2013

Decorebas


- Seu telefone?

- 9...

- O número não está cabendo no sistema. Poderia repetir?

- 9...

- Ainda dá erro.

- Já sei: tira o primeiro 9, vai ver o sistema não foi adaptado para os nove dígitos de SP.

- Mas a senhora falou onze números.

- Falei? Será q coloquei o DDD?

- A senhora falou 9...

- Desculpa, este é meu CPF.

- Não há problema, respondeu o rapaz sem fazer piada, mostrando estar bem treinado pelo RH. Qual seu telefone?

- Também começa com 9, mas não estou me lembrando. Você saber ver o número do telefone mexendo no aparelho? Perguntou-lhe apresentando o celular.

- Não tenho autorização para este procedimento, senhora.

- Tem wi fi aqui? Pela minha assinatura de e-mail eu consigo ver meu celular.

- Infelizmente, não senhora. Tiraram porque os funcionários eram os que mais usavam e estava atrapalhando o atendimento, explicou-lhe o funcionário mostrando não estar tão bem treinado assim pelo RH.

- Entendo. Posso deixar para informar o telefone depois?

- Posso colocar que a senhora recusou-se a informá-lo, mas aí a senhora terá que entrar em contato, pois não teremos como telefonar.

- Por e-mail vocês não fazem contato?

- Não há campo para preenchimento de e-mail no sistema, senhora.

- Bem, então coloca o número q não sei se é o meu: 9...

- Eu posso lhe ligar para confirmar, senhora.

- Ótima ideia.

Incrível, mas aquele telefone que lhe parecia estranho era o seu – desde aquele dia, nunca mais saiu de casa sem cartão de visitas.

domingo, 9 de junho de 2013

Despedida

Um sonho

Um projeto

Determinação

Trabalho

Realização

Alegria

Conflitos

Férias

Não será mais assim

Já não vinha sendo assim

Resignação

domingo, 2 de junho de 2013

Uma personagem: o que poderá acontecer com ela?


Joana piscava muito. Morena clara de cabelos ondulados, estatura média e IMC sob controle, viveu infância e adolescência através dos livros e da Internet. Mesmo assim não era aluna brilhante. Joana só lia do que gostava: ficção científica.

Certo dia, em uma revista antiga do consultório médico, Joana leu que piscar era importante, principalmente para quem fica muito tempo em frente à tela do computador – e Joana acessava a Internet todos os dias. Preocupada com a sua saúde, começou o treinamento de abrir e fechar os olhos.

O impacto do novo hábito tirou-a da confortável transparência que a timidez lhe impunha: Joana, cuja presença era pouco notada, passou a ser conhecida como “a moça que pisca”.