quarta-feira, 3 de abril de 2013

Aproveitando a casca da banana

Volta e meia fico com a impressão de que devo agir diferente, de alguma forma mudar hábitos. Implicância mesmo. Outro dia,  fiquei triste por colocar cascas de banana no lixo. Eu já comi banana assada com casca e não achei ruim – seu gosto confundia-se com o da banana. E, se não me engano, só dá certo se assar banana verde.

 

Fiquei pensando o que poderia fazer com as próximas cascas - todas elas de bananas bem maduras. As receitas que encontrei exigiam ingredientes como farinha de trigo, que eu não estava disposta a acrescentar em meus hábitos alimentares. Gostei, no entanto, de uma receita que dizia para cozinhar a casca com pouca água, bater no liquidificador e depois misturar na massa de um bolo.

 

Cozinhar em água era razoável. Foi o que eu fiz: piquei a casca e coloquei em fogo baixo. O cheiro era de bananada, liquidifiquei e não acreditei que a tal pasta só tinha cheiro e nenhum gosto.

 

Lembrei então da recomendação das nutricionistas de que se deve acrescentar fibras às comidas calóricas. Casca de fruta certamente contém fibra. O que é calórico e sempre fica bom com tudo? Isso mesmo: leite condensado.

 

Coloquei um terço da lata, a “sopa” de seis cascas nanicas foi mexida em fogo baixo até ferver. A quantidade de leite condensado certamente depende do quanto é colocado de água no início, antes de cozinhar. Após a fervura, a mistura virou um creme com gosto de banana e consistência de mingau. Rendeu pelo menos meio litro (talvez também dê para fazer com açúcar mascavo e leite, uma forma de diminuir a quantidade de gordura).

 

Experimentei puro, quatro colheres foi suficiente para eu não querer mais. Não ficou enjoativo, as fibras devem ter exercido sua função de saciedade - se fosse brigadeiro de chocolate a lata inteira não teria sido suficiente.

 

Fiquei com a impressão de que a mistura deve ficar muito boa recheando bolo, uma camada de recheio dela, outra com os dois terços da lata do leite condensado que sobrou. É, não vou escapar de comprar a farinha de trigo.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Experienciando

Seria o seu primeiro personagem virtual, talvez mais vivo do que muitos, principalmente dos não iniciados no palco, dos ainda não filmados – apenas lidos.
 
Pertencia a um grupo, individualidades com algo em comum. A partir da mesma metodologia: pesquisa de campo e entrevista, cada um montou seu personagem.
 
Achou que se lembraria dos outros perfis, não quis anotá-los. Limitou-se a avisar ao grupo a realização de sua tarefa e começou a adicionar os nomes estranhos que lhe eram sugeridos pela rede social.
 
Amizades aceitas e a surpresa: aquelas pessoas existiam, não eram personagens. Antes do convite pareciam virtuais também, sem amigos, mas agora o sabia às centenas. Nomes estranhos para sua realidade, não para o interior da Venezuela.
 
Quem não vê cara, não vê coração, lembrou-se. Aqueles jovens permitiram-lhe acesso a suas informações pessoais sem saber qualquer informação sua a respeito (ou a respeito de seu personagem, melhor dizendo). E se houvesse alguma má intenção no convite, ao invés de mera trapalhada?
 
A vida real também é assim. Bandidos vestem-se bem, pobres pagam caro por marcas e ricos mantém simplicidade no modo de viver – o contrário do que nos fazem crer. Nas cidades, corremos tantos ou mais riscos do que no meio do mato. Nas redes sociais e Internet, corremos tantos ou mais riscos do que fora da tela.
 
Por que crianças e jovens que não sabem andar na rua sozinhos têm liberdade para navegar, surfar sozinhos? A violência física é a mais fácil de cicatrizar, eventualmente apenas mais difícil de esconder. Mas não é a única violência possível, nem a pior. Não há esconderijo atrás de uma tela, apenas vulnerabilidade.
 
Impressionou-se com a quantidade de convites a que teve que recusar, mais ainda com as fotos das amizades sugeridas. Uma delas merecia denúncia. Fez. No dia seguinte, recebeu e-mail avisando o cancelamento daquela linha do tempo e garantindo-lhe anonimato. Ufa! Estranhamente, tanto fotos daquele tipo quanto os convites cessaram.
 
Agora, com a aparente tranqüilidade, resta apenas aguardar a inclusão dos outros personagens para o início do próximo exercício.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Almoço e Janta


- Obrigada, mas vou manter o pedido: acho que é menos calórico.
- Se a senhora prefere algo mais saudável, o chá também está incluído no combo.
- É diet?
- Hmm, não sei, deixe-me ver.
O atendente desloca-se até a geladeira, pega uma das latas, lê o rótulo e responde sorridente:
- São só 124 calorias!
- Obrigada, vou preferir o zero mesmo. Açúcar só vale a pena no sorvete e no leite condensado.
- Mas será que o refrigerante vai ter menos calorias que o chá?
- Dizem que é zero...

 * * *
- Mais alguma coisa?
- Pimenta do reino.
Eis que, virando o frasco, o sanduíche adquire uma camada uniforme de tom preto.
- Desculpa, vou tirara o excesso. Na loja em que trabalho precisa sacudir muito para sair alguma pimenta. Posso fechar?
- A moça não vai trazer mais rúcula?
- Verdade. Vamos aguardar a rúcula, então. Fulana! A rúcula.
Momento de silêncio. Ninguém mais na fila.
- Moço, enquanto a rúcula não vem, posso já ir pagando?
- Claro, claro.
O pagamento é feito com o cartão, que primeiro não encaixa na máquina. Depois, a máquina oscila entre a rebeldia de lhe caber tão fraco sinal e a indecisão de reconhecer a senha. Milagrosamente o CPF foi digitado corretamente de primeira.
- Posso fechar?
- Após a rúcula, sim.
Fulana chega com vários potinhos. O espaço da rúcula é preenchido por mais um compartimento de peito de frango.
- Você não trouxe a rúcula...
- A rúcula acabou.
- Mas tinha rúcula no pote que você levou...
- Pouca coisa.
- Vocês usam no máximo 3 galinhos por sanduíche, ainda dava para o meu sanduíche...
- Infelizmente coloquei no lixo, senhora.
- Essa é a terceira loja em que vou e não tem rúcula.
- A senhora me desculpa, não sou dessa loja, não sabia que a fulana não ia trazer a rúcula. Posso fechar?
- Nós encomendamos, mas não nos entregam. E temos que usar no dia em que recebemos, por isso acontece de acabar.
- Mas poderia ter algum substituto.
- Infelizmente não tem senhora, posso fechar?

 * * *

- Você soube o que eu descobri, Maria?
- Não, o quê?
- Sou vizinha dela.
- Deve ser mesmo, vocês pegam o mesmo ônibus.
- Qualquer dia desses vou lá fazer uma visita, tomar um café.
- Vá mesmo, a qualquer hora - costumo ficar em casa.
- Ôxe. Tomar café? Café tem aqui no trabalho. Se você vai visitá-la, vá para o almoço e fique para o jantar.