quarta-feira, 3 de abril de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
Experienciando
Seria o seu primeiro personagem virtual, talvez mais vivo do
que muitos, principalmente dos não iniciados no palco, dos ainda não filmados –
apenas lidos.
Pertencia a um grupo, individualidades com algo em comum. A
partir da mesma metodologia: pesquisa de campo e entrevista, cada um montou seu
personagem.
Achou que se lembraria dos outros perfis, não quis anotá-los.
Limitou-se a avisar ao grupo a realização de sua tarefa e começou a adicionar
os nomes estranhos que lhe eram sugeridos pela rede social.
Amizades aceitas e a surpresa: aquelas pessoas existiam, não
eram personagens. Antes do convite pareciam virtuais também, sem amigos, mas
agora o sabia às centenas. Nomes estranhos para sua realidade, não para o
interior da Venezuela.
Quem não vê cara, não vê
coração, lembrou-se. Aqueles jovens permitiram-lhe acesso a suas
informações pessoais sem saber qualquer informação sua a respeito (ou a
respeito de seu personagem, melhor dizendo). E se houvesse alguma má intenção no
convite, ao invés de mera trapalhada?
A vida real também é assim. Bandidos vestem-se bem, pobres
pagam caro por marcas e ricos mantém simplicidade no modo de viver – o contrário
do que nos fazem crer. Nas cidades, corremos tantos ou mais riscos do que no
meio do mato. Nas redes sociais e Internet, corremos tantos ou mais riscos do
que fora da tela.
Por que crianças e jovens que não sabem andar na rua
sozinhos têm liberdade para navegar, surfar sozinhos? A violência física é a mais
fácil de cicatrizar, eventualmente apenas mais difícil de esconder. Mas não é
a única violência possível, nem a pior. Não há esconderijo atrás de uma tela, apenas vulnerabilidade.
Impressionou-se com a quantidade de convites a que teve que
recusar, mais ainda com as fotos das amizades sugeridas. Uma delas merecia
denúncia. Fez. No dia seguinte, recebeu e-mail avisando o cancelamento daquela linha
do tempo e garantindo-lhe anonimato. Ufa! Estranhamente, tanto fotos daquele
tipo quanto os convites cessaram.
Agora, com a aparente tranqüilidade, resta apenas aguardar a
inclusão dos outros personagens para o início do próximo exercício.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Almoço e Janta
- Obrigada, mas vou manter o pedido: acho que é menos
calórico.
- Se a senhora prefere algo mais saudável, o chá também está
incluído no combo.
- É diet?
- Hmm, não sei, deixe-me ver.
O atendente desloca-se até a geladeira, pega uma das latas,
lê o rótulo e responde sorridente:
- São só 124 calorias!
- Obrigada, vou preferir o zero mesmo. Açúcar só vale a pena
no sorvete e no leite condensado.
- Mas será que o refrigerante vai ter menos calorias que o
chá?
- Dizem que é zero...
- Mais alguma coisa?
- Pimenta do reino.
Eis que, virando o frasco, o sanduíche adquire uma camada
uniforme de tom preto.
- Desculpa, vou tirara o excesso. Na loja em que trabalho
precisa sacudir muito para sair alguma pimenta. Posso fechar?
- A moça não vai trazer mais rúcula?
- Verdade. Vamos aguardar a rúcula, então. Fulana! A rúcula.
Momento de silêncio. Ninguém mais na fila.
- Moço, enquanto a rúcula não vem, posso já ir pagando?
- Claro, claro.
O pagamento é feito com o cartão, que primeiro não encaixa
na máquina. Depois, a máquina oscila entre a rebeldia de lhe caber tão fraco
sinal e a indecisão de reconhecer a senha. Milagrosamente o CPF foi digitado
corretamente de primeira.
- Posso fechar?
- Após a rúcula, sim.
Fulana chega com vários potinhos. O espaço da rúcula é
preenchido por mais um compartimento de peito de frango.
- Você não trouxe a rúcula...
- A rúcula acabou.
- Mas tinha rúcula no pote que você levou...
- Pouca coisa.
- Vocês usam no máximo 3 galinhos por sanduíche, ainda dava
para o meu sanduíche...
- Infelizmente coloquei no lixo, senhora.
- Essa é a terceira loja em que vou e não tem rúcula.
- A senhora me desculpa, não sou dessa loja, não sabia que a
fulana não ia trazer a rúcula. Posso fechar?
- Nós encomendamos, mas não nos entregam. E temos que usar
no dia em que recebemos, por isso acontece de acabar.
- Mas poderia ter algum substituto.
- Infelizmente não tem senhora, posso fechar?
- Você soube o que eu descobri, Maria?
- Não, o quê?
- Sou vizinha dela.
- Deve ser mesmo, vocês pegam o mesmo ônibus.
- Qualquer dia desses vou lá fazer uma visita, tomar um
café.
- Vá mesmo, a qualquer hora - costumo ficar em casa.
- Ôxe. Tomar café? Café tem aqui no trabalho. Se você vai
visitá-la, vá para o almoço e fique para o jantar.
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