sábado, 26 de maio de 2012

Quem?

Quem espera
erra.
Não alcança,
descansa.

Quem cansa
dança
sem qualquer música,
não tenha dúvida.

Quem escolhe
morre
pra toda oportunidade
que lhe venha dar vontade.

Quem deseja
não almeja
o que lhe convém,
mas só o que não tem.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Paradoxo

Feliz é a lágrima que se liberta do olhar, mesmo que sozinha, mesmo que logo se acabe, mesmo que venha a ser escondida, pois tudo que podia intensamente viveu. Triste é o sorriso treinado, esconderijo frágil que mantém distância e dá segurança ao superficial convívio. É como rir de alegria e chorar de tristeza. Que importa?

As diferenças importam pelos pontos em comum que possuem, pelo inesperado que proporcionam. E como tem gente esquisita no mundo! Não que isso lhe importasse, mas observar ao redor, quando o redor não é familiar, servia-lhe de distração. Passatempo que vira trabalho e trabalho que ajuda a passar o tempo.

Fones de ouvido que impõem uma futura surdez e a música tocada aos que não lha escolheram. Seriedade ao jogar no celular durante a espera – qualquer espera. Apressar o passo, mas nem tanto, para assim melhor conversar. Falar distrai a distância, distrai quem fala, mesmo quando o assunto é sério, mesmo que não se ouça o que é dito. Ouvir o que não lhe é dito, mas jogado ao vento, é mais lúdico do que esquisito: são problemas que não precisará resolver; dores que não precisará sentir; falas, ações, reações que a outros poderão servir; comemorações às quais poderá anonimamente ir.

Quem não ouve, não se move, não muda ou não fala pode parecer seguro (assim como o silêncio torna a todos sábios), mas tal qual o sorriso treinado apenas esconde-se da esquisitice que é a felicidade da lágrima.

sábado, 19 de maio de 2012

Limpa Brasil

Dia 27 de maio vai acontecer na capital paulista o movimento entitulado "Limpa Brasil", no qual os voluntários que se engajarem retiram com antecedência um kit para auxiliar na coleta de lixo seletivo na cidade e depois entregam o que retirarem das ruas nos postos de coleta. Entregando cheio o saco de lixo do kit, de 100 litros, o voluntário ganha um ingresso para o show que vai acontecer no final do domingo, uma forma simbólica de comemorar o trabalho realizado.

Mesmo que você não seja tão entusiasmado para sair à cata de recicláveis na rua, dá para fazer o dever de casa levando o seu próprio lixo reciclado nos seguintes endereços de postos de coleta na capital. Também é possível a partir do site organizar a coleta seletiva (pelo menos por um dia) na sua cidade.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Luz, câmera, ah...não!

Um dia após o outro. Há quem assim defina a vida. Para outros vida pode até ser uma continuidade, mas não uma repetição.
Ao receber, pela segunda vez – e de outra pessoa – convite para participar de um set de filmagem como figurante, percebeu que teria de aceitar. Dessa vez teria disponibilidade.
“Roupa descolada” constava no e-mail de confirmação do convite como o que deveria vestir. Dúvidas mil, caprichou no conteúdo de sua mochila. A figurinista não gostou de nada e providenciou uma jaqueta de brim, sorte que as luzes acesas afastavam o frio.
Mas só após a maquiagem olhou-se no espelho: divertiu-se ao perceber que o penteado estava igual ao que fazia na infância, quando se apresentava para a família, junto à prima, cantando qualquer música do momento. Só faltou o gostinho de pegar “escondido” o lápis da tia e fazê-lo de batom.
Quebra de rotina e novas certezas. Termos técnicos aprendidos e esquecidos no mesmo dia. Troca de MSN contando da façanha e, a pedido, uma foto foi tirada apenas para ser mostrada pessoalmente, caso a cena repetida três vezes não seja aproveitada.

Menor que o Mundo


Alterar o texto de Carlos Drummond de Andrade. Desafio ousado.

Em um ano de tantos centenários literários (além dele, lembro-me de Jorge Amado e Nelson Rodrigues), Drummond tem recebido bonitas homenagens, num jeito mineiro de ser: discretas como ele parece ter sido.

Despretensiosamente, na tarde fria com garoa, dia das mães e final de campeonatos de futebol, consegui ingresso para a peça. Não poderia ter feito melhor escolha.

As alterações feitas nos poemas de Drummond contam, com a ajuda de técnicas de circo e de coreografias com sapateado, uma história coesa que mantém o tom do poeta. Além de emocionar-se, quem conhecer o original irá também divertir-se com o novo contexto dado às rimas. Mais não conto: só fica sabendo quem for conferir pessoalmente, no teatro do SESI.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Você quer um abraço?

Volta e meia jovens simpáticos oferecem abraços na Av. Paulista. Li que se trata de um movimento internacional. Não consegui aderir à causa, talvez por parecer mais uma gaiatice do que um proposta séria, por atrapalhar o fluxo de pessoas nas cada vez mais estreitas calçadas ou porque já vi moradores de rua sendo ignorados sem constrangimento mútuo. Também pode ser que eu esteja sendo injusta, caso eles - além da Av. Paulista - tenham também asilos, orfanatos e prisões como destino de suas manifestações. O tempo dirá.

Ontem havia mais de cem manifestantes, todos uniformizados com a t-shirt da campanha. Faziam bastante barulho e no farol vermelho abraçaram um ônibus. Transmitiam alegria, sem dúvida. Uma moça pediu-me para que aceitasse abraçá-la, pois ela estava com frio.

Mesmo sendo contra esmolas, cedi. Sim, pois o aquecimento permitido pelo abraço de um pulôver é tão efêmero quanto a ajuda dos abraços ofertados pelos manifestantes. Seria essa a origem de meu ceticismo, a superficialidade da solução apresentada? A menina friorenta mudou minha percepção quanto ao movimento: são os manifestantes que precisam do abraço, não as pessoas que têm pressa para chegar em algum lugar e acabam aceitando-o.

A grande conectividade virtual tem mantido as pessoas simultaneamente em contato e afastadas. É possível que a convivência com computador, telefone e televisão, mais do que com pessoas, acabe por criar pretextos para reuniões: abraços, hobbies – ao invés de manter o convívio como algo natural. Com o discurso de ajudar ao outro, pessoas estão pedindo socorro; por isso não há preocupação em saber quem é o público externo ou em alterar o status quo dos considerados auxiliados. Décadas atrás os jovens estariam reunidos para discutir a leitura de clássicos e propor alternativas ao mundo. Hoje, se há discussão, é on line, cada um de sua casa. Essa pode ser uma das contradições pós-modernas que levaram a campanha a oferecer abraço ao invés de pedir; sua necessidade é admitida de forma reflexa.

Outra possibilidade para meu ceticismo é distorção do que se entende por conquista. Comemora-se, por exemplo, a aprovação no vestibular. Só que vestibular é uma confirmação de um comprometimento com os estudos, comprometimento que deveria permanecer após a aprovação. É a convivência com a faculdade e com o estágio que garante o diploma ou a oportunidade de outra carreira – não o vestibular. Profissão todo mundo vai ter uma, conviver bem com ela é o fator relevante. Mas se o diploma for considerado conquista, algo pronto e acabado, eis mais um medíocre no mundo.

Reconheço, lógico, que há momentos marcantes – insisto apenas que a celebração é o convívio. A assinatura de uma escritura é um marco, mas celebrá-la é não deixar o imóvel fechado e desocupado. Assim como o primeiro encontro só tem a sua importância quando muitos o sucedem.

Abraçar é querer e permitir, não é um toque instantâneo ou automático como o faz a alegre campanha. Quem quer abraçar precisa se estruturar, conhecer quanto seus braços sustentam e como caminhar estando eles ocupados – antes de fazê-lo. Afinal, como bem me lembraram hoje, não se pode abraçar o mundo com as pernas.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Reforma


Estão trocando o telhado. São quatro homens. Em conjunto, as telhas são agrupadas e jogadas ao chão. Poderiam ir a outro telhado, mas agora são cacos que quebraram o silêncio. A serra na nova telha incomoda e o trabalho é feito sem proteção; a fuligem espalha-se pelo ar e pelos pulmões. Caem as telhas e poderiam cair os homens. Dois vieram para o solo. Um com uma pá, trabalha enquanto o outro olha. O outro, com o carrinho de uma roda só, afasta-se com os cacos, enquanto a pá serve de apoio ao que só, apenas olha.