segunda-feira, 27 de maio de 2013

- Eu juro que não é cantada, mas sua fisionomia não me é estranha...

- Desculpa, não estou reconhecendo você.

- Você trabalha ou mora aqui na região?

- Bem, as regras de segurança dizem para não responder nada a estranhos, mas não, não sou da região.

- Estranho, não costumo errar.

Os dois continuam parados, em frente ao balcão, aguardando que o número de seus pedidos apareça no painel - para que cada um possa então pegar a bandeja com o prato escolhido e almoçar. Mais do que para o painel, olham para a tela do celular. Ela ri:

- Sabia que não me engano! Olha você aqui, nas minhas mensagens...vai dizer que não é você nessa foto? E ela lhe mostra o celular.

- Sim, sou eu. Temos então um amigo em comum no Facebook. Deixa eu ver quem é...Nem desconfio.

- Uai! Você fala em segurança, mas fica posando de amigo, comentando o que o outro escreve e nem desconfia quem seja?

- Normal. E ele volta a olhar e teclar no celular dele.

Para ela, de normal ali, só aquele bife com feijão e arroz quentinhos.


 

domingo, 26 de maio de 2013

Compreendendo a Censura


Fui assistir Crônicas de Cavaleiros e Dragões – O Tesouro dos Nibelungos no SESI. A dramaturgia foi adaptada a partir da versão de Tatiana Belinky da mitologia nórdica. Censura recomendada: 12 anos.

 

Na cena da noite de núpcias, a Rainha que casou contrariada (honrando sua palavra sem saber que houve trapaça no duelo que participou) recusa o marido e há uma luta corporal em que ela vence. No dia seguinte, o rei, com ajuda de um amigo, no quarto do casal, luta com ela que, imobilizada, acaba “cedendo”.

 

A coreografia é muito bem feita, a luta parece uma dança e complementa o cenário primoroso que o SESI costuma apresentar. Mas é sexo à força (um estupro floreado, digamos) mostrado para adolescentes – isso sem contar que a peça atrasou de tantos pais que ainda estavam preenchendo a ficha de autorização para que seus filhos, menores de 12 anos, pudessem assistir.


Difícil imaginar que não houvesse outra forma de apresentar a contrariedade da Rainha e o mau caráter do Rei e de seu amigo protagonista. Talvez grande parte da plateia não tenha percebido a mensagem subliminar que quase me fez ir embora. Também duvido que alguém tenha comentado com o(a) filho(a) viu, nessa versão o protagonista não era herói; poderiam ter sido felizes se houvesse diálogo, mas seguiram seus interesses, impuseram sua força e colocaram tudo a perder. As pessoas saem comentando os efeitos especiais ou a bunda do ator ao tomar banho.

 

E não é a primorosa estética a responsável pela superficialidade. A arte serve para reflexão, um momento em que não vivemos nossa vida, mas nos permitimos pensar sobre outros assuntos, reordenar ideias, soltar o riso e o choro por alegrias e tristezas que não são nossas: emprestamos o corpo para lavar a alma de um encardido inconsciente. Pelo menos deveria ser assim.

 

Não dá para simplesmente pensar que a recomendação nomeada censura, e, por manter o nome, odiada como tantos outros mecanismos estatais, existe à toa. A classificação continua sendo obrigatória, cada um cumpre de acordo com a sua consciência – como se fosse possível ter consciência sem reflexão. Além disso, não é todo dia ou em qualquer companhia que dá vontade de ver qualquer conteúdo. A advertência da censura ajuda os preguiçosos em ler a sinopse.

 

Outro dia, num PUB, ingleses discutiam qual povo contrariava mais o governo que elegia: se brasileiros ou espanhóis. Eu nunca havia parado para pensar a respeito, mas agora, com aquelas crianças assistindo a cenas que eu talvez só compreendesse em minha adolescência tardia, lembrei-me deles e do clichê de que se hay gobierno, soy contra.

 

A informação impressa no programa, para justificar não recomendar a peça aos menores de 12 anos, é conteúdo violento, relevante pra a compreensão da trama. Talvez a advertência tenha sido ignorada pelos pais por não ser nada muito diferente do contexto televisivo das crianças, infelizmente.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Rico de quê?


- Amiga! Sério que você vai ser rica, vamos poder comprar coleções completas em Miami?
Risos.
- Sei de toda essa função em Miami, mas vamos combinar... rico, rico, não faz isso – novo rico talvez.
- E você vai ser o quê?
Risos
- Uma rica pessoa.
Risos
* * * 

Com tanta gente relacionando qualidade de vida à aquisição do último modelo de qualquer coisa que possa mostrar e descartar, política social hoje é a que permite o consumo, não a que dá saúde, educação e moradia. Ou alguém conhece comunista que não consuma além do básico?
 * * *
Antigos rótulos, antigos métodos: nenhuma novidade no fracasso. Reivindicações por salários, greves para recuperar o poder aquisitivo. Insensível do que não dá aumento, não irresponsável quem estimula e cede à procura superior à demanda.
Eu quero ter menos contas! Ainda pareço uma voz isolada.
Wi-fi e internet de graça em qualquer canto.
Plano de saúde supérfluo.
Estudante que investe seu tempo – nada além disso.
Menos contas, mais tempo, mais vida.

sábado, 11 de maio de 2013

Oi

Desisti de reclamar para a operadora, que ou me envia mensagem gravada (às quais não posso responder) ou então pede para eu ligar em duas horas, que é a previsão do sistema voltar (dia após dia, a previsão é sempre de duas horas).
 
Organizei os protocolos, datas e horários para reclamar, mas...
 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Às compras


Madrugada. Fome. Nenhuma opção degustativa em casa. Veste o casaco ⅞ para disfarçar a roupa caseira e dirige até a primeira porta comercial aberta que encontra. Demora para decidir. Longa fila. Abre a bolsa e não encontra a carteira. Deixa as sacolas ao lado. Reserva com o caixa a compra, deve voltar em meia hora, tempo suficiente para pegar o cartão em casa e retornar pr’ali. Assim o fez. Houve o cancelamento da transação e tudo já estava espalhado nas estantes de origem. Não reclamou, só pegou o chocolate que devorou por inteiro antes mesmo de estacionar.

Dia seguinte. Fez a lista de compras, pesquisou preço, esqueceu da senha. Tentou de novo. Aviso: na próxima tentativa, bloqueio. Combinou que logo voltaria, precisava pegar o outro cartão: nada de caixa eletrônico disponível àquela hora. A loja era outra, deu certo. Voltou, pagou, levou.

Mas esqueceu-se de muito no escrever da lista. Voltou no terceiro dia. Ofertas boas. Na hora de pagar, no bolso da calça jeans, bilhete único e não o bancário. Juntou notas e moedas. Ufa! Pagou.

 * * *

Se era para distrair-se, que fosse em um restaurante. Com amigos, prestigiou a amizade do dono. Ganhou desconto. Chip da máquina sem sinal. Nem sinal de dinheiro ou cheque na carteira, só para o valet do restaurante ao lado. Atrás da nota fiscal com CPF registrado, registrou sua gratidão com votos de sucesso. Ainda não sabe se voltará.